Entre galochas vermelhas

Texto Cristão (1)

Joana estava sentada no meio fio, seus cabelos molhados pela chuva produziam pingos aleatórios sobre suas galochas vermelhas. Acompanhava a trajetória de cada uma daquelas gotas com um olhar distante, algo a atormentava profundamente. Andei em sua direção, sentei-me ao seu lado e a abracei. Ela não me conhecia, levou um grande susto ao sentir meu braço envolvendo suas costas úmidas. Até hoje, não sei dizer exatamente como tive tamanha coragem, mas estava decidida a viver de forma diferente desde aquela manhã. Ainda segurava o laudo médico quando abracei Joana, suas botas chamavam a minha atenção desde o momento em que cheguei no ponto de ônibus. Ela não fugiu, seu olhar de susto foi rapidamente substituído por um sorriso tímido. Ficou ali, imóvel.

Durante o abraço, pude perceber que os pingos de seus cabelos se confundiam com as lágrimas que escorriam de seus olhos. Naquele momento, juntamos nossas gotas. A chuva chegou inesperadamente nesse dia, estávamos no meio de junho e eu já não carregava mais o guarda-chuva na bolsa como faço durante o verão. No decorrer da minha consulta, pude ver pela janela a tempestade que começava lá fora. Lembrei-me que a sombrinha havia ficado na gaveta do armário. Talvez não fosse uma ideia tão ruim tomar um banho de chuva, quem sabe ela não poderia lavar todos os meus medos e preocupações? Enquanto a médica me explicava o tratamento, pensava na família que eu não tinha, pensava em Deus, pensava nas bolinhas brancas da minha sombrinha.

Meses depois, Joana me contou que havia feito uma oração naquele dia. Pedira a Deus uma amiga para a vida toda, que a ajudasse a superar a morte de sua irmã. Jéssica era sua maior companheira, morrera em um acidente grave em janeiro, atropelada por um ônibus. E lá estava Joana, sentada em um ponto de ônibus, com suas galochas vermelhas, sem imaginar que sua amiga já estava a caminho. Lembro-me que, no momento em que saí daquele consultório, prometi a mim mesma aproveitar cada momento da minha vida. Faria verdadeiras amizades, abraçaria as pessoas, viveria pelo amor, teria minha própria família. Dos meus dias no orfanato, nunca me esqueci de um desenho em um livro com uma garota que usava botas vermelhas. Ah, como eu quis aqueles sapatos por tanto tempo! Prometi que as compraria naquela tarde.

Como você pode perceber, esse foi um verdadeiro encontro, como poucos que acontecem na vida. De um abraço, muitos outros vieram. Compramos as minhas botas na mesma tarde e, de vez em quando, ainda saímos para um banho de chuva entre galochas. Ela esteve na minha primeira sessão de quimioterapia, também esteve na última. Eu estive em seu casamento, no nascimento do primeiro e também do segundo filho. Ela se tornou a família que eu não tinha e eu me tornei a amiga que ela precisava. Tudo porque, naquela manhã de junho, eu escolhi viver, ela decidiu usar suas galochas vermelhas e nós escolhemos acreditar que orações são respondidas todos os dias.

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