Ele fez tudo formoso no seu devido tempo…

Texto Cristão (13)

Muitas vezes nos referimos aos “tempos de espera” como períodos da vida nos quais caminhamos por áridos desertos sem nenhuma perspectiva de oásis. Odiamos esperar. Somos acostumados ao imediatismo. Lutamos contra o tempo e pedimos, imaturos, para recebermos nesse exato momento coisas que sequer estamos prontos para acolher e lidar.

Estamos imersos numa geração que tem pressa, muita pressa. Nossa expectativa de vida tem crescido, ao passo em que a internet, o 4G, os smartphones e todas essas coisinhas tecnológicas – sem as quais não vivemos mais – têm deixado a impressão de que essa esfera chamada Terra tem rodado muito mais rápido do que deveria. Sempre ouço dos antigos a frase: “no meu tempo, o nosso dia parecia render muito mais”.

A página da internet que não abre em 20 segundos tornou-se nossa “pedra no sapato”. O carro lento na pista da esquerda é capaz de estragar nossa manhã ensolarada. Observamos, com rispidez, enquanto cortamos furiosos pela direita, o amigo vagaroso que calmamente dirige seu carrinho na nossa “pista predileta”. Um sorriso no seu rosto pode esconder um sarcasmo, ou mesmo a distração de quem não está nem aí para a pressa alheia.

Contextualizados nesse desesperado “senso de urgência”, sequer sabemos o que esperar da geração “iphone 200”. O que será de uma geração que considera um piscar de olhos tempo demais para aguardar o envio de uma mensagem, ou quem sabe esperar uma boa comida chegar à mesa ou mesmo ouvir a gargalhada do filho mais novo? Simplesmente não podemos compactar, imprimir e enviar respostas instantâneas a todos os momentos únicos que a vida nos dá. Algum dia, certamente nos lembraremos desses momentos com um sorriso saudoso, uma vontade enorme de voltar no tempo e fazer acontecer tudo de novo…e de novo.

Assim, ao passo em que estamos aumentando a nossa expectativa de vida, temos diminuído a nossa “vida de expectativa”. O mundo das coisas instantâneas tem devorado a beleza das coisas que só podem ser produzidas em toda a sua formosura porque são trabalhadas pelo tempo.

Sim, as pessoas ficam mais interessantes com a idade, assim como os vinhos e os bons escritores. Tempo, experiência e refinamento caminham juntos. Qualquer um que queira metamorfosear a vida, necessitará do companheiro “tempo”. Precisará vê-lo não como um inimigo trapaceiro, mas um fervoroso aliado no processo de ser e crescer.

Em Gênesis e em toda a criação do universo, o Pai nos ensinou essas verdades. O Criador escolheu um dia após o outro para criar a sequência de vida que hoje compõe o cenário da nossa existência. Ele poderia ter feito tudo de uma só vez, mas escolheu dividir, contemplar e partilhar. Criou os céus e a terra, as plantas e os animais. Criou o homem e se sentiu satisfeito – sim, a satisfação é elementar na obra de todo artista. Mas houve também um dia de descanso. Um dia em que Ele atirou-se no puff da sala com os pés pra cima e riu de si mesmo, enquanto contemplava suas maravilhosas experiências criativas. “E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom”Gn 1:31.

Ele também delegou. Deixou para o homem a divertida tarefa de dar nomes, cuidar do jardim e povoar a terra, enquanto Ele se ocupava em ser e transmitir o Amor.

Nossa missão imediata é seguir os passos do nosso Criador. Não podemos, assim, cometer o gravo equívoco de passar a vida pensando o tempo todo no próximo passo, na próxima viagem, na próxima estação. Precisamos trabalhar a capacidade de contemplar e de sentir-se satisfeito com o que produzimos em cada tempo da vida.

Absorver o dia de hoje em goladas fartas de satisfação é sentir o que o apóstolo Paulo conclui ao afirmar que“combateu o bom combate, cumpriu a carreira”. Temos o hoje e nele temos tudo, se formos realmente capazes de desembrulhar os presentes recebidos a cada dia com gentileza e generosidade (cada raio de sol ou gota de chuva, cada sorriso ou lágrima, ou mesmo o “jeito desajeitado” como as crianças correm nas praças).

Desejo ser capaz de sufocar a ansiedade numa calmaria de fim de tarde, na respiração lenta e compassada, no andar vagaroso de quem crê que Ele ainda nos espera para um encontro na viração do dia, trazendo amor em Seus braços e colo de Pai.

Até que, enfim, com ruguinhas nos olhos e com o coração cheio das experiências e perspectivas que o tempo nos deu, possamos concluir que Nele, e no seu devido tempo, todas as coisas encontram o seu lugar.

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