Chocolate do afeto

Contos Cristãos

Ana entrou no carro apressadamente, estava atrasada para o trabalho mais uma vez. Por alguns segundos, tentou se lembrar se havia trancado a porta do apartamento. Conferiu se o celular estava na bolsa, verificou se o notebook permanecera no banco traseiro. Estava pronta para sair. Naquele dia, faria uma apresentação importante no trabalho. Ana era gerente de marketing em uma empresa alimentícia que estava lançando um novo produto: chocolate do afeto. Haviam desenvolvido uma fórmula capaz de aumentar consideravelmente a liberação de ocitocina natural após o consumo de uma só barrinha. Os testes iniciais haviam sido fantásticos e a produção estava previamente liberada.

Tinha algumas amostras em seu porta-malas e, antes de ligar o carro, decidiu pegar uma unidade para se tranquilizar. O efeito após o consumo era de bem estar, melhora do humor e das interações sociais. A longo prazo, estimularia ações de maior altruísmo e honestidade entre os consumidores. Desde quando lhe ofereceram as amostras, Ana comia uma única porção todos os dias. Na semana passada, estranhou o fato de não ter se enfurecido quando um motociclista quebrou o retrovisor do seu carro. Nos últimos dias, sentia a necessidade de jantar com sua família todas as noites. Estava impressionada com essas mudanças em sua rotina.

Ao dar ré, escutou um barulho estranho. Havia raspado a lateral na pilastra, o retrovisor realmente estava fazendo falta, precisava trocá-lo urgentemente. Preferiu não descer pra olhar, estava muito atrasada. Enquanto dirigia, músicas emanavam do som do veículo e embalavam seus pensamentos para uma realidade distante, imaginava seu chocolate sendo consumido em todo o mundo. Podia enxergar as pessoas sendo mais amorosas e solidárias, sonhava com um mundo sem violência e desigualdade. Era realmente um sonho bom. Ao parar em um sinal debaixo de um viaduto movimentado, a vida real a chamou de volta. Viu uma criança de uns sete anos parada em frente ao carro, seus pés descalços reproduziam movimentos de uma dança divertida enquanto suas mãos manipulavam pequenas bolinhas.

Ana olhou para os lados, procurando algum adulto que estivesse com ele. Não havia ninguém. Abriu a janela do carro e o chamou.

– Qual o seu nome?

– João, dona.

– Onde estão seus pais?

– Eu não tenho pai, não, dona. Moro na rua mesmo.

– Você jura, João? Você não tem pai nem mãe?

– Eu não preciso jurar nada não, a vida é minha.

– João, meu nome é Ana. Se você quiser entrar no carro, vou te levar para um lugar onde vão cuidar de você.

O garoto olhava com uma expressão curiosa. Aquela mulher parecia sincera e ele sabia como se defender. Não custava nada tentar, entrou no carro. Ana não tinha ideia do que fazer com aquele menino. Somente sabia que não deveria deixá-lo ali. Decidiu, então, levá-lo para sua casa, ele tomaria um banho e comeria uma boa refeição. No meio do caminho, lembrou-se do seu trabalho, estava perdida… Precisava remarcar aquela apresentação! Ligou para seu chefe, explicando toda situação. Precisava de mais tempo. Ouviu algumas reclamações, mas não se importou, valeria a pena.

Quando entraram no apartamento, Ana não conseguia acreditar em sua coragem. Pensou no chocolate e começou a achá-lo perigoso. Agira sem pensar, colocara seu emprego em risco. Seu marido estava na cozinha, pronto para sair para o trabalho, Carlos ficou visivelmente preocupado ao vê-los entrando.

– Ana, aconteceu alguma coisa? O que você está fazendo em casa?

– O João precisava de um lugar pra tomar banho e para comer. Eu trouxe ele pra cá. Preciso encontrar um lugar pra ele ficar.

Carlos a encarava com um olhar de interrogação. Já vira aquele menino algumas vezes no semáforo do viaduto da Rua Siqueira. O que ele fazia em sua casa? Ana estava louca. Não podiam manter aquela criança ali. Desde o dia em que começou a comer aqueles chocolates, ela estava diferente. Carlos ligou para o trabalho no intuito de justificar sua ausência, ajudaria Ana a resolver aquele problema. Enquanto decidiam juntos o que fazer, João permanecia sentado no sofá, reparando cada detalhe da casa, sentindo-se um intruso que não queria partir.

Nesse meio tempo, o celular de Ana tocou. Era seu chefe.

– Ana, a apresentação do produto novo foi cancelada. Estamos recolhendo todas as amostras produzidas. A licença de produção foi revogada, os chocolates não podem ir para o mercado. Assim que você puder, traga as unidades que estão aí.

Estranhou o alívio que sentiu depois daquela notícia. A sua mudança não era genuína, sentiu-se pretensiosa por acreditar que seria capaz de transformar o mundo com uma substância que já existia naturalmente entre as pessoas, não era capaz nem de mudar a si mesma. Imaginou o motivo pelo qual reprovaram o chocolate, estava assustada com sua ações. Gostaria muito de poder ajudar aquela criança, mas pensava em sua família, em como poderia concretizar aquilo tudo. O mundo das ideias era tão diferente da realidade. Em poucos minutos, Ana não conseguia parar de pensar nas consequências do seu ato, no seu trabalho, no quanto precisava daquele salário, nas suas filhas que estavam na escola. Sua essência permanecia ali. Sentiu-se egoísta, o conflito em sua mente era aterrorizante. Decidiu, então, fazer o que havia prometido a João, depois disso, poderia continuar sua vida real.

Naquele dia, João tomou um banho quente, comeu uma comida caseira e assistiu televisão em um sofá macio. No final da tarde, Ana o levou para um abrigo de menores, ficou lá durante alguns meses, mas não cuidaram dele como prometido. Decidiu fugir com três amigos mais velhos, voltou para aquele mesmo semáforo na Rua Siqueira e, de vez em quando, podia ver Ana através das janelas que separavam suas realidades.

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Ansiamos ardentemente por uma grande mudança no mundo em que vivemos, queremos transformar as pessoas que estão ao nosso redor, mas não estamos dispostos a abrir mão do nosso próprio ego. No fim, buscamos nos salvar das dificuldades que surgem pelo caminho. 

A transformação da nossa essência ocorre por meio de um trabalho constante realizado pelo Espírito Santo, ela ocorre de dentro para fora. O amor é a bandeira dEle sobre nós e a corrupção que existe no âmago do nosso ser somente é purificada quando abrimos mão do nosso ego para que Jesus viva em nós.

2 comentários em “Chocolate do afeto

  1. Vc tem um grande talento.a leitura prende e nos dá uma emoção. boa.escreva um livro.vai fazer o maior sucesso.eu sou leiga.mas aprecio o wue é bom . vai rm frente, sucesso.

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