Contos Cristãos

Estava parada em frente à janela do quarto, conseguia ver as pequenas luzes indo e vindo, reparava a lua tímida por entre as nuvens, ouvia o som da vida em seu curso comum. Pensava no quanto meu dia havia sido especialmente desanimador. Os sorrisos e as falas programadas me atormentavam desde a saída até meu retorno ao pequeno apartamento alugado. Naquele dia pela manhã, enquanto caminhava pela rua, um ônibus passou bem perto de mim, o movimento do grande pedaço de metal era capaz de deslocar o ar e levava consigo os fios dos meus cabelos soltos. Talvez essa fosse a solução, conseguia me imaginar atravessando a rua e sendo completamente carregada por ele. Faltava coragem.

Fui caminhando até o trabalho como era de costume. Minha estadia em São Paulo não se parecia em nada com aquilo que eu imaginara há alguns atrás. Saí de Ribeirão Preto com o intuito de me tornar uma grande escritora, sonhava com meus livros publicados, conseguia vislumbrar meus novos amigos, minha nova família, imaginava um grande amor. Depois de um ano inteiro de desilusões, acabei aceitando um trabalho em uma gráfica do meu bairro. A maior parte das atividades não envolvia textos elaborados, muito menos profundos. Já estava lá há três longos anos.

– Bom dia. Boa tarde. Boa noite. – As falas eram sempre as mesmas e nenhuma delas era capaz de expressar o grande vazio que invadia meu ser dia após dia. Não sonhava mais com um grande amor, não me sentia digna de um. Já não me recordava das sensações de felicidade, alegria ou disposição. Não sentia mais vontade de acordar, comer, andar… No entanto, todos os dias, era capaz de sorrir e trocar palavras educadas; e mesmo sem ser atriz, conseguia atuar como uma. Hoje, fico me perguntando se as pessoas realmente não notavam ou se elas preferiam não se importar. Sempre acabo escolhendo a segunda opção.

– Boa noite, Juliana. – essas foram as últimas palavras que ouvi da Catarina, minha colega de trabalho, naquela noite.

– Boa noite. – enquanto pegava meu casaco pendurado na cadeira de escritório, reparava uma das rodinhas soltas em um de seus pés. Me sentia quebrada, como aquela cadeira. O que havia de bom naquela noite? Não conseguia encontrar um atributo sequer.

No caminho de volta para casa, outro ônibus passou por mim. O plano adormecido pela manhã começou a se materializar cada vez mais e mais. Olhei meu relógio, eram 18h30. Estava decidida a ter uma conversa com Deus naquele mesmo instante.

– Deus, não sei se você está me ouvindo. Não sei se a minha vida vale alguma coisa para você, mas se ela vale, hoje seria um bom dia para eu descobrir. Não vejo mais sentido no que faço, não vejo sentido em continuar, não tenho pelo que lutar. Não tenho mais forças, se você está aí em algum lugar, preciso da sua ajuda…

Esperava que depois daquele discurso algo extraordinário fosse acontecer. Uma voz sairia dos céus, um clarão, um estrondo ou algo do tipo. Não foi assim. Mas uma palavra em especial era persistente em meus pensamentos: veredasNão fazia ideia do que aquilo significava para mim, mas ela permanecia lá, latente, constante em minha mente. Isso nos leva de volta ao meu momento na janela: enquanto encarava as luzes que se moviam lá embaixo, também refletia sobre essa palavra. Sinceramente, sentia-me ainda mais perdida. Pensava em como seria mais fácil acabar com aquele vazio em um instante, imaginava para onde eu iria depois. E se eu encontrasse um vazio ainda maior? Essa probabilidade me assustava de uma maneira estrondosa.

Meus olhos se enchiam de lágrimas, estava envolvida pelos sentimentos de raiva e medo, sentia-me abandonada, perdida. Enquanto me ajoelhava ao lado daquela janela, meu celular começou a tocar. Olhei para a tela: Heloísa. Era uma antiga amiga da minha cidade, não nos falávamos há alguns anos. Eu não tinha vontade de atender, mas como em um reflexo, meu dedo deslizou sobre a tela e lá estava a sua voz doce chamando por mim.

– Ju, é a Heloísa. Você ainda lembra de mim? – enquanto ouvia suas palavras, engolia o choro e buscava recompor minha voz, o modo “atriz” estava novamente ativado.

– Ei, Helô. Claro que eu lembro. Quanto tempo!

– Não posso deixar de te dizer algumas coisas, Ju. Hoje, enquanto fazia o meu devocional pela manhã, Deus me levou a alguns versículos em Provérbios. Posso ler pra você?

– Claro, pode. – não tinha nada a perder naquele momento.

– “Confie no Senhor de todo o seu coração e não se apoie no seu próprio entendimento; reconheça o Senhor em todos os seus caminhos, e Ele endireitará as suas veredas.”

Lá estavam as minhas veredas, comecei a achar aquele telefonema muito estranho. Estava curiosa para entender mais, para ouvir o que ela tinha para dizer, não podia ser coincidência.

– Enquanto lia essas palavras, Deus trouxe o seu nome à minha memória, Ju. Passei o dia todo pensando em você, pensando em te ligar. Mas foram tantas tarefas, tantas coisas para fazer, acabei deixando para depois. Quando olhei no meu relógio agora a pouco, já eram 18h30 e eu ainda não tinha te procurado. Nesse momento, senti a convicção de que você precisava ouvir isso ainda hoje. Não sei pelo que você está passando, mas sei que Deus tem um plano perfeito para a sua vida. Não sei se você tem se sentido perdida, mas é Ele quem nos dá direção, nos leva pelo caminho certo, Ju. Deus fará seus caminhos retos se você colocar toda a sua confiança nEle, querida. Você só precisa convidá-lo a entrar em cada área da sua vida. Por meio de Jesus, você encontrará a verdade. Ele é o caminho, a verdade e a vida.

E lá estava a resposta daquela minha oração. Eu nunca havia experimentado algo assim antes, fiquei sem palavras por alguns instantes. Ele se importava, Ele tinha um plano para mim. Muitas pessoas não acreditam quando conto essa história, mas posso te garantir, foi real e por causa dela estou aqui fazendo esse texto. Não deixo de escrever um dia sequer, porque entreguei a Ele tudo que tenho, tudo que sou e tudo que faço, Ele é o meu Senhor e Salvador, tudo pertence a Ele desde o princípio. Espero que vidas sejam resgatadas por meio dessas palavras e que muitas pessoas, assim como a Heloísa, nunca deixem de atender um chamado de Deus.

Esse texto foi baseado em um testemunho real, muitas partes são fictícias, mas a essência de restauração e resgate de uma vida por meio do amor de Jesus permanece.

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