Saudade dos dias não vividos

Saudades de Deus

Jéssica olhava através da janela do ônibus, músicas saltavam por seus fones de ouvido e a transportavam para outra realidade… Os carros e os pedestres conduziam uma dança e eram acompanhados pelos galhos das árvores, pelos cachorrinhos que caminhavam despreocupados e pelas nuvens se movendo com o vento. Em sua imaginação, toda sua vida era orquestrada por uma trilha sonora perfeitamente planejada para cada momento. Enquanto balançava seus pés estranhamente ritmados, reparava a assimetria dos seus cadarços e o pedaço de chiclete grudado em uma parte do chão… Por alguns instantes, seus olhos foram atraídos pelas cores, letras e imagens do jornal fixado no lado frontal do ônibus.

Notou, então, as três pessoas que ali estavam com suas fotografias expostas rente à notícia anunciando as férias pelos parques da cidade. O jornal estava quatro bancos à sua frente, não conseguia enxergar nitidamente, mas teve a impressão de reconhecer uma delas. Continuou olhando por alguns segundos, mas não era possível ter certeza daquela distância. Nesse momento, enfrentou uma batalha interior entre sua preocupação misturada à curiosidade e sua constrangedora preguiça de levantar do banco. Sentiu que a trilha sonora já não estava mais adequada à leve tensão daquele instante, o dedilhado delicado do violão não se encaixava ao estranho desconforto que invadia seu ser. Decidiu, assim, escolher uma nova música e, enquanto seus ouvidos eram invadidos por um ritmo acelerado, levantou-se rapidamente. Com apenas três passos, estava de cara com ele.

Era ele. A foto em preto e branco conseguia revelar o efeito dos anos que os separavam. Aquela pequena imagem trouxe à sua memória momentos tão distantes que sequer pereciam reais. De repente, um novo filme, com sua trilha sonora completamente única, passava em sua mente. Decidiu pausar o som em seu celular; conseguia se lembrar de cada detalhe, dos dias ao sol que passaram juntos, das brincadeiras intermináveis, dos risos e passos apressados, das brincadeiras de roda, da corda e da bola voando pelo ar. João foi seu melhor amigo na infância, caminharam juntos dos cinco aos sete anos, até o dia em que Jéssica mudou de bairro e de escola. Nunca mais se viram, nunca mais riram juntos depois disso. Uma saudade imensa invadiu seu coração, saudade daquilo que tiveram e do que nunca havia acontecido também… João estava desaparecido; como ela poderia encontrá-lo?

Enquanto permanecia de pé em frente à foto, lembrou-se do dia da despedida. João havia feito um desenho para ela, os dois estavam em meio a uma savana, rodeados de leões, girafas, elefantes… Todos pareciam dançar juntos, como amigos que celebram uma festa em um reino de paz e harmonia. Quando o entregou, disse-lhe que um dia se encontrariam naquele lugar e seriam amigos outra vez, para todo sempre. Seus olhos se encheram de lágrimas, elas já não se seguravam mais, rolavam descontroladamente por sua face… Jéssica não conseguia entender como aquilo a afetara tanto, seu coração estava despedaçado. Tentou se lembrar o motivo de não terem se encontrado de novo, seus pais telefonaram para a família de João algumas vezes e eles se falaram por um tempo, mas depois de alguns meses, ao ligarem para o mesmo número, ninguém mais atendia. Naquela época, a internet não era uma opção. Os anos foram apagando as memórias de um amor que permanecia lá, pronto para ser despertado.

Entre uma lágrima e outra, decidiu ligar para o número contido no jornal. Precisava saber mais sobre ele, precisava entender o que havia acontecido. Talvez já o tivessem encontrado! Gravou a sequência numérica e decidiu telefonar assim que chegasse em casa. Como estaria o João depois daqueles vinte anos? Em sua memória, ele permanecia o menino de sorriso travesso, com a melhor gargalhada do universo e um amor gigantesco pelas pessoas. Pensou no quanto deveria tê-lo amado mais, “o amor pressupõe ação“… sentiu-se culpada. Assim que colocou os pés em casa, pegou o telefone. Demoraram um pouco a identificar o nome dele, mas disseram que já havia sido encontrado, no entanto, somente a família poderia passar mais informações. Depois de muita insistência, Jéssica conseguiu o celular da mãe de João.

Na sua cabeça, notas de suspense entoavam toda aquela história. Como ela podia amar tanto uma pessoa com quem havia passado apenas dois anos da sua vida? Aquele tipo de amor ia além da sua compreensão. Ansiou profundamente que João estivesse bem, feliz, sorrindo. Seus dedos hesitavam em digitar aqueles números, o que ela iria dizer? Decidiu não pensar muito. Ligou.

– Alô.

– Alô, a senhora é a mãe do João?

– Sim, quem fala?

– Dona Melissa, é a Jéssica. Estudei com o João lá na Estrela da Manhã, a senhora lembra de mim?

– Claro que lembro, minha querida. Você ficou sabendo do João, né?

– Eu vi a foto dele no ônibus, como ele tá? Quanta saudade… Não acredito que não nos falamos mais.

– Minha querida, o João ficou muito doente por muito tempo, no final, ele já não estava com a cabeça muito boa… Mas ele sempre nos falava do dia em que seria amigo de todos os animais, do dia em que não haveria mais morte, mas sim vida para todo sempre. Você se lembra como ele amava os animais? Ele descansou, Jéssica.

Não tinha palavras para responder, não sabia o que dizer. A vontade incontrolável de chorar invadia novamente todo seu corpo. Por alguns segundos, o silêncio foi completo. Não havia a música exata para aquele momento.

– Não fique triste, minha querida… Ele está em paz com o seu maior e melhor amigo. Você quer vir aqui tomar um café?

– Claro, Dona Melissa. – não entendia bem o que ela queria dizer com aquilo tudo, mas, por instantes, teve a convicção de que encontraria João naquele lugar do desenho, no dia em que dançariam e entoariam cânticos de alegria. Uma nova trilha sonora se formava dentro dela… e ela era incrivelmente linda.

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E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas. Apocalipse 21.4

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