Conto cristão

Joseane saiu para correr mais cedo naquele dia, levantou às seis, comeu uma banana, tomou um copo de suco e logo já estava na avenida principal do bairro. Colocou os fones de ouvido e começou os alongamentos que sempre fazia antes de cada corrida. Enquanto apoiava um pé em uma barra e esticava sua perna, reconheceu o carro de seu cunhado parado em frente a uma loja de roupas. Por alguns segundos, continuou observando a situação, ele estava dentro do carro, parecia aguardar por alguém, estranhou tudo aquilo e decidiu desvendar o mistério. Permaneceu parada atrás de uma banca, olhando de longe e, após alguns minutos, conseguiu ver uma mulher saindo do prédio com uma sacola na mão, ela entrou no carro, eles se abraçaram e Carlos logo arrancou. Naquele instante, sua imaginação a levou aos lugares mais distantes e sombrios, nenhum deles favorecia o cunhado.

Não poderia mais correr com aquela história na cabeça, decidiu ir para casa e ligar para sua mãe, como contaria aquilo para sua irmã? Poderia arruinar aquele casamento. Chegou afobada, pegou o telefone e, sem pensar muito, contou tudo para Dona Joana.

– Mãe, eu acho que o Carlos está com outra mulher, acredita? Eu vi uma situação muito estranha lá na avenida do bairro agorinha, às seis e meia da manhã… a senhora acredita nisso?

– Ah, minha filha… você tem certeza? Não é coisa da sua cabeça?

Enquanto Joseane explicava detalhadamente a situação para a mãe, Dona Joana pensava na forma como contaria tudo para a outra filha. Não sabia como fazer aquilo, decidiu conversar antes com sua irmã, precisava desabafar com alguém. Teria sido um abraço ou um beijo? Ele havia esperado a mulher sair escondido? Contaria tudo para Tereza, ligou para ela assim que terminou a conversa com Joseane.

– Tereza, minha irmã… tô com uma situação que não sei nem como te contar! Acho que o Carlos tá traindo a Ester, acredita? O que eu faço agora, Tereza? A Joseane disse que viu ele aos beijos com uma mulher lá na avenida perto da casa dela! Quanto desgosto!

Tereza ouviu aquela história com toda curiosidade do mundo, sempre imaginara que Carlos se escondia atrás das aparências, ninguém podia ser tão perfeito, mas eles não se importavam com sua opinião, todos amavam aquele rapaz. Assim que desligou o telefone, foi acordar o marido para contar a novidade.

– José, José… acorda! Você acredita que a Joseane viu o Carlos aos beijos e abraços, em plena luz do dia, com outra mulher lá na avenida do bairro dela? Quase um atentado ao pudor! Você precisa conversar com esse rapaz… onde já se viu desrespeitar a minha sobrinha dessa forma?

Em poucas horas, metade da família já sabia do suposto caso de Carlos. Todos estavam horrorizados e falavam coisas terríveis a seu respeito. Uma prima chegou a mencionar o dia em que Carlos passara a mão em suas costas, sabia que havia maldade ali. Alguém criou um grupo para conversarem sobre o assunto, estavam decididos, fariam uma intervenção naquele casamento, precisavam fazer alguma coisa por Ester, ela estava grávida, pobrezinha. Iria perdoá-lo? Discutiam o destino da parente como quem debate o final da novela das oito, os mais maldosos chegaram a enviar montagens de Carlos com outra mulher para o grupo, a situação já estava fora do controle.

Às sete da noite, Ester chegou em casa do trabalho, sentia-se exausta. Sua gravidez estava muito tranquila, mas o esgotamento físico era inevitável. Sentou-se no sofá por alguns minutos, tirou o celular da bolsa e foi checar as mensagens não lidas, levou um susto ao encontrar em uma delas uma montagem de Carlos com outra mulher, não conseguia entender aquilo. Enquanto olhava para a tela do celular, seu marido entrou pela porta da sala, chegou com uma orquídea nas mãos e deu um beijo em seu rosto. Ela ainda pensava em como lidar com aquela situação.

– Como foi seu dia, meu amor? Obrigada pelas flores, estamos comemorando alguma coisa? – iria sondar o marido antes de introduzir qualquer discussão.

– Foi maravilhoso, Ester! Sabe aquela partilha da herança do meu avô? Vamos receber a nossa parte em breve, se Deus quiser… Vamos reformar o quarto para o bebê, vai dar até pra gente fazer uma poupança pra ele. Lembra quando eu te disse que ia buscar aquela minha irmã distante, por parte de pai, pra gente resolver tudo hoje? Ela estava no prédio de uma amiga, perto da casa da sua irmã… só faltava a parte dos documentos dela. Encontramos com a advogada hoje cedinho… Parece que agora vamos resolver tudo!

Ester ouvia o caso, mas não conseguia se concentrar bem, não tirava aquela imagem da cabeça. Nunca imaginou que seu marido pudesse traí-la… era inocente demais? Definitivamente, aquilo era um recado. Sua prima, Camila, tinha enviado a imagem… Seria por pura maldade? Decidiu perguntar primeiro a ele o que aquilo significava, resolveria primeiro a situação dentro de casa, sabia que havia algum mal entendido ali.

– Carlos, você sabe o significado dessa foto?

Ele não sabia. Como poderia imaginar?

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Toda espécie de animais, aves, répteis e criaturas do mar doma-se e é domada pela espécie humana; a língua, porém, ninguém consegue domar. É um mal incontrolável, cheio de veneno mortífero. Com a língua bendizemos ao Senhor e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. Da mesma boca procedem bênção e maldição. Meus irmãos, não pode ser assim! Acaso pode sair água doce e água amarga da mesma fonte?

Tiago 3:7-11

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