Conto cristão

Letícia estava deitada no chão, olhava para o teto do quarto e analisava cada minúsculo detalhe capaz de quebrar a monotonia de todo aquele branco. A sensação do piso gelado junto ao seu corpo aliviava o calor escaldante do intenso verão que assolava sua cidade, sentia-se particularmente cansada naquele dia. Mateus havia chorado durante toda a madrugada, estava com alguma virose; queria levá-lo ao médico, mas Henrique disse que deveriam esperar um pouco mais. Ela não iria irritá-lo, preferiu aguardar.

Enquanto estava ali deitada, seu filho dormia e parecia um pouco melhor, talvez Henrique estivesse realmente certo. Letícia se permitiu, então, uma pequena viagem em seus pensamentos. Imaginava uma família feliz, pai, mãe e filho, como em um comercial de televisão, onde os abraços são fartos, os sorrisos transbordam e os problemas simplesmente não existem. Pensava nos outros casais de sua comunidade, talvez todos eles também escondessem seu grandes problemas. Geralmente, preferia não pensar muito em suas escolhas, mas, volta e meia, lembrava-se das possibilidades que existiram antes de se casar com Henrique.

Recordou-se das pequenas desavenças no início do namoro, do alerta de seus pais, dos conselhos das amigas e do seu coração obstinado em continuar naquele relacionamento. As pequenas ofensas se transformaram em grandes abusos durante o casamento, pensava em tudo que poderia ter acontecido se tivesse esperado um pouco mais. Namoraram durante um ano e ela engravidou no segundo mês do casamento, pensava em como seu filho lhe dava forças para continuar, mas sua consciência lhe dizia que não conseguia proporcionar a ele seu melhor como mãe, estava completamente quebrada. Henrique a pressionara em relação à gravidez e todo resto, sentia-se profundamente oprimida.

Refletia, também, sobre o quanto o conflito interno entre suas convicções e sua realidade minava sua identidade a cada dia, já não se lembrava mais da sua essência, estava acabada. Perdia-se em suas orações e não sabia mais pelo que clamar. Não sabia para onde ir, tinha vergonha de compartilhar sua intimidade, ninguém conhecia sua verdadeira rotina. Enquanto divagava em seus pensamentos, o som de choro a trouxe de volta à vida real. Mateus chorava descontroladamente, quando o pegou no colo, percebeu o quanto estava quente, a febre havia voltado. Chorava junto com o filho, as lágrimas escorriam dos olhos enquanto os lábios professavam palavras de arrependimento e suplicavam por ajuda. Precisava levá-lo ao hospital, não tinha dinheiro, não tinha cartão, não sabia como dirigir. Decidiu bater na casa da vizinha, precisava urgentemente de ajuda.

Enquanto Cristina dirigia e os conduzia ao hospital, Letícia pensava na reação do marido, o que faria? Deveria ter ligado para ele antes, como não havia pensado nisso? Não estava disposta a lidar com sua raiva naquele momento, conseguia imaginar seu desequilíbrio, Henrique arranjaria uma forma de culpá-la e acusá-la, ela carregava sobre si o fardo daquele casamento. Ao chegarem na emergência, tudo foi muito rápido, após a avaliação inicial, informaram-lhe que Mateus estava com suspeita de meningite, precisariam interná-lo.

Como? Por quê? Sentia-se culpada, não tinha com quem partilhar aquele sentimento. Entendia as consequências de suas escolhas, dos seus erros e falhas, mas clamava pela misericórdia de Deus sobre sua vida. Enquanto estava sentada ao lado do filho, suplicava por sua vida, de cabeça baixa, via cada uma de suas lágrimas atingir aquele chão frio, suas mãos unidas não poderiam estar mais atadas, precisava assumir o controle das coisas, precisava resgatar sua identidade, só não sabia como. Depois de se recompor e preencher todos os papéis da internação, ligou para o esposo.

– Henrique, tive que trazer o Mateus pro hospital. Ele está com suspeita de meningite, a gente devia ter vindo ontem… Nosso filho está doente de verdade.

– Aaahh, Letícia… e a culpa é minha? Se você realmente quisesse, teria insistido comigo. Não venha jogar sua culpa sobre mim, tudo é minha culpa, né? Onde vocês estão e como você chegou aí?

– A Cristina trouxe a gente, estamos no Hospital São Paulo.

– Depois do trabalho, passo aí. Cuide do menino direito, você sabe que é sua função.

Ao desligar o telefone, Letícia se perguntou por que Henrique desejou tanto ser esposo e pai, ele claramente não estava fazendo um bom trabalho e não se esforçava para isso. Pensou na hipocrisia que viviam, ele se declarava um marido maravilhoso, estavam todos os domingos na Igreja, almoçavam com os pais toda a semana. O quanto as aparências realmente revelam sobre uma pessoa?

As horas se passaram e Henrique não aparecia, Mateus já estava recebendo os medicamentos, a febre havia cessado, precisaria ficar internado por mais alguns dias. Letícia começou a se preocupar com o marido, ligava para o seu celular, mas a chamada caía na caixa postal. Entrou em contato com a família, ninguém sabia onde ele estava. Seu coração se afligiu, ela amava a vida do esposo, seus sentimentos eram confusos, não sabia exatamente o que pensar. Nesse meio tempo, seu telefone tocou, um número estranho estava refletido na tela do celular, ao atender, a voz de um homem emanou do aparelho, enquanto falava, os pés de Letícia perderam o chão, seus olhos estavam desorientados, suas mãos tremiam. Henrique se envolvera em um acidente grave com um caminhão…

Não conseguia deixar de pensar no filho órfão, não podia acreditar. A dor da perda se misturava à estranha sensação de alívio, seu coração estava dilacerado, sentiu-se uma impostora, sentiu-se pequena, incapaz, corrompida. O que faria agora? Onde estaria seu marido? Como faria aquilo tudo por conta própria? Sentiu-se, mais uma vez, culpada por não tê-lo resgatado. Poderia se libertar disso algum dia? Precisava voltar para casa, para o seu amor maior, precisava encontrá-lo mais uma vez, de braços abertos, disposto a recebê-la, precisava do seu colo, não poderia mais viver longe dele, sabia que ele a esperava. Ela não estava mais sozinha, nunca estivera. Sentou-se, como naquela manhã, no chão frio do hospital…

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O coração é mais enganoso que qualquer outra coisa e sua doença é incurável. Quem é capaz de compreendê-lo? Jeremias 17.9

Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece as minhas inquietações (sentimentos). Vê se há em minha conduta algo que te ofende, e dirige-me pelo caminho eterno. Salmo 139.23-24

Há caminho que parece certo ao homem, mas no final conduz à morte. Provérbios 14:12

2 comentários em “Entre a vida e a morte

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