Devocional

Esses dias tenho meditado muito sobre fidelidade. Todos nós apreciamos a fidelidade, em maior ou menor medida, e ainda que sejamos infiéis aos nossos objetivos, valores ou pessoas, ficamos profundamente abalados quando os dardos da infidelidade atingem em cheio o nosso peito fraco.

E estou convicta de que a fidelidade é, antes de tudo, uma questão de escolha. Decidimos ser fiéis por causa da estima a algum valor, ideia ou a alguém. A medida da nossa fidelidade é intrinsecamente vinculada à medida do amor. Quanto mais amamos, mais desejamos permanecer nesse amor e não romper os laços que nos unem a outrem.

Muitos livros e filmes inspiradores tiveram como temática belas histórias de fidelidade. Quem nunca chorou vendo o cãozinho “hachiko” aguardar, por anos a fio, o retorno de seu dono morto na estação de trem? Ou ainda a belíssima história de amizade e amor sacrificial entre Hassan e Amir, no livro “O Caçador de Pipas”? Sempre me pego meditando na frase que rasga o coração do amigo traidor: “por você, eu faria isso mil vezes”.  Quantas vezes você já foi capaz de dizer essas palavras a alguém ao longo da vida? A verdade é que poucas pessoas passam pela vida e verdadeiramente experimentam essa medida de amor sacrificial.

Não obstante a nossa natureza nos traia e impeça que, em muitas circunstâncias, expressemos o amor fiel de Hassan por Amir, a bíblia nos ensina que essa qualidade é apenas mais um dos atributos do nosso Criador. Nas cartas de Paulo a Timóteo, a bíblia afirma que se formos infiéis, “ele permanece fiel; pois não pode negar-se a si mesmo”. Veja, ser infiel é algo impossível para Deus, ou Ele estaria negando a Sua própria essência.

Em inúmeras passagens, a Bíblia continua nos ensinando que o nosso Deus não muda; aquilo que era desde o princípio  permanecerá até o fim. Ele não quebra expectativas, Ele não estraga os bons momentos com palavras ruins, ou jamais nos deixa na mão quando, necessitados, solicitamos a Sua ajuda e intervenção. Ele não é como os homens e mulheres que, tantas vezes, ferem o nosso coração.

Crer na fidelidade do Senhor é, assim, um primeiro passo para estabelecer um verdadeiro relacionamento de amor com Ele. Em Hebreus 11, Paulo afirma que sem fé é impossível agradar a Deus “porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam”. Crer Nele é crer naquilo que é dito a respeito Dele nas Escrituras.

O livro de Oseias traz uma poderosa alegoria dessa característica intrínseca à natureza do Pai. Ele conta a história de um profeta que recebe de Deus a incumbência de tomar por  esposa uma mulher prostituta e infiel. Não bastasse a necessidade de se aliançar com tal mulher, Oseias é obrigado a permanecer amando-a mesmo diante das suas “escapadas” e de sua escancarada infidelidade. Qual homem (se não tocado pelo amor de Deus) seria capaz de proceder dessa forma?

Essa história não é uma alegoria distante, é real e acontece o tempo todo. Mesmo diante das inúmeras provas que o Senhor nos dá de Seu perfeito amor, decidimos nos tornar independentes e não mais nos relacionarmos com o nosso Amado. Ele então reconstrói o caminho da intimidade diante dos nossos olhos e nos atrai com cordas de amor: “(…) eis que eu a atrairei, e a levarei para o deserto, e lhe falarei ao coração.A solidão, o calor e a sequidão do deserto foram (e continuam sendo) o cenário perfeito para esse romance.

Veja que tipo de amor mais excelente, este que permanece fiel mesmo diante da infidelidade e da ingratidão, quebrando qualquer forma de orgulho próprio! Até o ponto em que, em um perfeito plano de resgate, Ele entrega Seu filho unigênito, Jesus, para aniquilar o pecado e redimir o pecador.

Ele estava com Deus, mas veio ao mundo, deixando todo o seu conforto e proteção de lado; Ele nasceu na simplicidade e assim permaneceu, não tinha sequer um travesseiro para recostar sua cabeça ou túnicas para se vestir; Ele sentiu compaixão dos miseráveis, cuidou das viúvas, deu amor sincero às prostitutas e não olhou para as suas “prostituições” com olhar de condenação. Ele amou o pecador e se compadeceu de suas dores. Curou a inúmeros enfermos e chorou com a morte de Lázaro. Ele foi homem e soube amar com a mesma fidelidade com a qual o Pai o amava. Sinceramente, tem história de amor mais linda do que essa?

Esse amor nos leva de volta à intimidade, ao dia da queda, ao jardim, aos encontros na viração do dia… uma rota direta aos segredos do coração do Pai.

Talvez você já saiba disso tudo, talvez conheça todas essas histórias e outras mais. Talvez você tenha crescido com Jesus e ainda permaneça ouvindo a Sua voz, ou talvez, em algum ponto da sua caminhada, tenha desistido de tudo e deixado de acreditar na fidelidade de Deus. Mas talvez você jamais tenha visto o amor dessa forma e esse texto te alcance num momento em que você está completamente desacreditado do amor, vivendo no deserto da sua própria solidão.

Não importa em que estágio você está, saiba que a fidelidade de Deus te acompanha. Os pensamentos Dele a seu respeito não mudam e Ele cumpre aquilo que promete. Cabe a nós decidirmos se permaneceremos na fonte do amor ou se precisaremos ser atraídos ao deserto para conhecê-Lo de verdade.

A canção que emana do coração do Pai para você hoje, a canção mais doce, cantada desde o princípio de todas as coisas até a eternidade, traz a certeza de que, em um mundo de tantas dúvidas e incertezas, algo jamais mudará: a Sua perfeita fidelidade. Que ao ouvir essa doce canção você consiga reencontrar seu caminho de volta ao jardim da intimidade.

Jardim (Canção de Oséias)

Eu te comprei, te amei, te acolhi
Te dei um nome, um teto pra dormir
Seus olhos passearam ao redor
Buscando outra vida, algo melhor
 E o que farei pra te alcançar?
E te trazer de volta ao lar
 Por ti compus poesia e canção
Fechaste a porta, a trava ao coração
Por um fresta eu te vi partir
Sem nem olhar pra trás, se despedir
E o que farei pra te encontrar?
E te trazer de volta ao lar
Abandonada pela rua, eu te encontrei
Imunda, nua, mendingando o pão que já te dei
Eu cumpro a minha parte, na aliança não existe mais distância
No deserto onde estavas nascerá um jardim
E a graça que te trouxe manterá você fiel
A mim

Um comentário em “Uma canção mais doce

  1. “A solidão, o calor e a sequidão do deserto foram (e continuam sendo) o cenário perfeito para esse romance”. Acredito que não precise dizer muita coisa, mas cada palavra de seus textos são como gosta de orvalho que refrescam a relva pela manhã. É lindo de mais ler simplicidade em tantas palavras!

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